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domingo, 1 de agosto de 2010

“Eu” e “não-eu”: o verdadeiro dilema da inação de Arjuna


por Luís A. W. Salvi (LAWS)
www.agartha.com.br

O “famoso” problema do conflito do ego, foi dissecado há 5 mil anos por Krishna, mas com o tempo o sentido da sua análise se perdeu, e se pretendeu insuflar metafísica demasiada naquilo que tinha mais a ver com simples psicologia humana (como também aconteceu, em parte, com os conceitos de “maya” e de “vazio”).
Krishna criticou a inação de Arjuna, demonstrando que Arjuna não queria agir porque, através disto, se projetava o seu “eu”. Arjuna julgava então que na inação, estaria mais garantida a sua isenção pessoal. “Ledo engano, meu caro Arjuna!”, disse-lhe Krishna.

“(...) o homem, enganado pela ilusão do ‘Eu’, pensa: ‘Eu sou aquele que faz.’ Mas aquele que conhece a verdade, sorri, porque por detrás da personalidade, enxerga a fonte real da ação, a causa e o efeito.” (“Bhagavad Gita”, 27-8)
A resposta não está na inação, afirma Krishna, mas no desapego. Através da ação virtuosa, o homem dá um exemplo multiplicador, e sabemos o quão poderoso pode ser o efeito do bom exemplo, até por ser raro, despertando o bem latente em cada um. O inativo (socialmente falando) pode não projetar a sua ação mais ostensivamente, dentro de um campo de conflitos potenciais, mas mantém todos estes conflitos latentes, dentro e fora de si. Assim, a inação apenas aumenta a confusão e a ignorância das pessoas:
“O sábio não deve confundir a mente dos ignorantes que atuam apegados ao resultado de suas ações; porém, deve executar suas ações com desapego e devoção e assim estimulá-los a que façam o mesmo.” (“Bhagavad Gita”, III, 27-8)
A inação apenas escamoteia as coisas, evita os conflitos potenciais, mas também posterga as soluções. Traz para o plano pessoal aquilo que deveria ser resolvido no coletivo, e deixa este sem solução, resultando não em inação, mas na omissão.

Tudo isto reflete a “velha” confusão entre ter um objetivo, e trilhar o caminho até ele, demonstrando claramente a necessidade de um auxiliar exterior para enxergar com clareza a situação. Afinal, somente quem trilhou o caminho, pode saber realmente onde é necessário chegar.
A importação de uma doutrina espiritual, é tão problemática quanto a tradução de um texto profundo de filosofia. Toda a pregação oriental contra o ego, se reduz hoje quase a um clichê-zen de pacifismo improvisado que não passa de simples omissão. Por mais que Krishna insista na inconveniência da inação, os Arjunas que andam por aí estão decididos a permanecer na sua atitude individualista e manter a espada embainhada, a menos que alguém ameace o seu conforto pessoal. Pois o único objetivo deste discurso cético, é erigir a própria torre-de-marfim, que é um dos lugares prediletos do ego.

Porém, é preciso ir além do quietismo, porque estamos numa era –que é a de Maitreya- muito mais parecida com de Krishna que com a de Buda. Insistir hoje no quietismo místico ou no individualismo, é tão errado quanto pretender militar na política na época de Jesus. O mundo está entrando em convulsão, e é preciso encontrar caminhos tão poderosos quanto esta crise que se aproxima.

Dinâmicas políticas

Isto é como o político que se vê cercado de poder e de pressões, e acaba cedendo até para não perder a cabeça, mas perde isto sim a sua alma. Ao contrário daquilo que pregam os ingênuos e os espertalhões, a solução não está em esperar o próximo candidato, que certamente apenas irá repetir a dose se o anterior não for adequadamente cobrado ou punido. A solução está –ao menos em parte- no controle social e na supervisão do eleitorado, já que muitas vezes a camarilha política envolve nas suas artimanhas até mesmo os supostos adversários ideológicos.

Esta seria a teoria geral da Democracia. Sabemos, porém, que este controle social nem sempre é eficaz, até porque a virtude muitas vezes se torna coisa rara no mundo (quiçá reprimida por ditaduras), e então parece que a questão fica sem respostas. A própria Democracia, embora seja considerada um sistema popular, parece não funcionar bem com as massas, muito menos quando o voto é obrigatório e sujeito a ser negociado. Grandes sociedades promovem a impessoalidade e tem dificuldade de exercer o auto-controle, daí a república e a democracia serem “em todos os tempos”, muitas vezes, realizadas dentro de limites, muitas vezes quase se confundindo com uma oligarquia.

Porém, tal como um líder presumido deve se sujeitar ao aval popular, ele também pode se sujeitar ao aval superior. No momento em que a sua ação está respaldada por uma mente superior, ou que ele segue a orientação de um plano maior devidamente supervisionado, todos podem encontrar a mais alta e segura forma de segurança e de legitimação. Porém, para não correrem os riscos de serem sacrificados, estes Orientadores também devem encontrar um canal de expressão direta com o povo, como buscaram fazer os profetas antigos, de modo que os líderes populares e os administradores sociais apenas fariam um “meio-campo”, sempre com vívido interesse, supostamente, se forem sinceros e bem intencionados, porque afinal também poderão ter muito a ganhar. Supostamente, algo assim aconteceu na Idade Média, quando os reis deveriam ser abençoados pelo Papa, antes de serem aceitos por suas próprias nações. Imagina-se que os reis aprovados seriam dotados de virtude cristãs, e aqui o papa pretendia substituir o papel dos antigos profetas, muito embora estes autênticos representantes do Governo Oculto do Mundo, não tivessem vínculos institucionais tão fortes como os clérigos, o que representava uma vantagem “ética” ou moral, e uma desvantagem “tática” ou física.

De toda forma, parece não haver outro modo de fazer bem as coisas, sem contar com todas as esferas sociais e culturais do mundo, porque a natureza humana está conformada já na sua origem nestes termos. No momento mesmo em que o ser humano adquiriu o livre-arbítrio, se passou a ter que encontrar outros mecanismos de contenção, que passam necessariamente pela orientação presumida das forças superiores que lhe outorgaram o dom do livre-arbítrio, como forma dele desenvolver a sua consciência.

Da obra "Noozonas", LAWS

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